1.
A Evolução do Comércio Exterior Brasileiro nos Anos 90
e os Novos Desafios
O
comércio exterior brasileiro passa por profundas transformações, nesta
década. O resultado mais visível é o crescimento de 120% do comércio
de bens, que passou de US$ 52 bilhões, em 1990, para US$ 114 bilhões,
em 1997. Esta notável expansão traz embutida, no entanto, uma importante
assimetria entre o desempenho das importações e o das exportações: enquanto
as importações triplicaram, de 1990 a 1997, passando de US$ 20 bilhões
para US$ 61 bilhões, as exportações cresceram, apenas, 69% - de US$
31,5 bilhões para US$ 53 bilhões.
Ao
mesmo tempo em que cria as condições necessárias para o crescimento
contínuo e acelerado das exportações, a médio e longo prazos, o processo
de transformação da economia brasileira, nos últimos anos, tem aumentado
as necessidades de importação, a curto-prazo. Esta assimetria nos ritmos
de crescimento de importações e exportações provocou, entre 1990 e 1997,
uma reversão nos resultados da balança comercial brasileira de cerca
de US$ 19 bilhões: de um superávit de US$ 10,7 bilhões, em 1990, para
um déficit estimado de US$ 8,3 bilhões, em 1997.
Entre
os fatores que mais influenciaram o comércio exterior brasileiro, neste
período, destacam-se: i) a abertura da economia brasileira, com a reformulação
do comércio exterior; ii) o processo de integração econômica, com a
assinatura do Tratado de Assunção, em 1991, e a consolidação do MERCOSUL
como União Aduaneira, a partir de 1995; iii) a estabilização da economia,
com o lançamento do Plano Real, em julho de 1994; iv) a redefinição
do papel do Estado, com o aprofundamento do processo de desestatização
e com as reformas constitucionais do capítulo da Ordem Econômica; e
v) a recuperação dos investimentos.
A
abertura da economia - caracterizada pela redução da proteção tarifária,
pelo fim das proibições impostas a um conjunto de importações e pela
eliminação gradual das restrições não-tarifárias, proporcionou o acesso
a matérias-primas, a produtos intermediários e, sobretudo, a máquinas
e equipamentos mais modernos e eficientes, que estão aumentando a competitividade
de todos os segmentos da economia. Esses ganhos substantivos de produtividade
proporcionados pela abertura comercial acirraram, ao mesmo tempo, a
competição no mercado doméstico. A abertura determinou, portanto, fortes
vínculos entre o nível de atividade da economia e as importações.
O
processo de integração regional - a união aduaneira do Mercosul,
em 1995, aprofundou a abertura comercial por meio do estabelecimento
da Tarifa Externa Comum e da liberalização do comércio entre os países
do bloco. Além disso, o processo de coordenação das políticas comerciais,
pré-condição em uma união aduaneira, diminuiu o grau de liberdade, no
manejo dos instrumentos de comércio exterior.
A
estabilização da economia - o Plano Real provocou, entre outros
resultados, a ampliação do mercado interno, com a incorporação de setores
da população de baixa renda, antes alijados do consumo. Com a economia
aberta e o fim do imposto inflacionário, o aumento do poder de compra
da população também teve efeito imediato sobre as importações brasileiras.
A reforçar essa tendência, a política cambial, depois do Plano Real,
deixou de ser utilizada como instrumento de incentivo às exportações
e passou a refletir, de forma mais próxima, o resultado da demanda e
da oferta de moeda estrangeira.
A
redefinição do papel do Estado - a abertura dos setores de telecomunicações
e de petróleo e o aprofundamento do programa de privatização têm reflexos
importantes sobre o comércio exterior. Esse processo está permitindo
a recuperação dos investimentos em infra-estrutura, mas significa maior
volume de importações. Além disso, como as compras feitas pelas empresas
privatizadas e pelas concessionárias de serviços públicos não mais se
realizam sob o guarda-chuva das compras governamentais, o Estado
deixou de ter qualquer controle direto sobre o volume de importação
dessas empresas.
A
recuperação dos investimentos - os investimentos estrangeiros diretos,
em especial, têm impactado de forma desigual o comércio exterior brasileiro.
Esses investimentos seguem, quase sempre, uma dinâmica particular: antes
de se estabelecer, as empresas estrangeiras fazem um reconhecimento
do mercado interno, o que significa, em muitos casos, a montagem no
País de uma rede de distribuição de produtos importados da matriz. No
segundo momento, quando os investimentos efetivamente se realizam, há
uma demanda por importações de máquinas, equipamentos e insumos, para
começar a produção no País. Apenas no terceiro momento, com a maturação
dos investimentos, é que aumenta a capacidade de exportação.
O
fortalecimento das exportações brasileiras, assumido como um objetivo
da sociedade, permitirá que a compatibilização entre crescimento econômico
e equilíbrio externo se dê em melhores condições, que se reduza a necessidade
de captação de poupança externa e que se incremente a geração de empregos
para os brasileiros. No momento em que as exigências do mercado e da
economia, bem como o desempenho dos concorrentes e dos competidores,
no mercado internacional, crescem mais rapidamente do que a capacidade
do País fazer frente a esses desafios, com base em procedimentos de
rotina, torna-se necessário quebrar o modelo vigente e estabelecer um
novo paradigma. Portanto, a análise das condições objetivas do País,
de suas necessidades, e do cenário mundial levou o Governo a estruturar
o Programa Especial de Exportação - PEE.

2.
O Que é o Programa Especial de Exportações - PEE
A
ênfase do Governo no aumento das exportações não é nova. Desde 1995,
uma série de iniciativas tem melhorado as condições do setor exportador,
entre as quais destacam-se: o aperfeiçoamento dos mecanismos de financiamento,
com o PROEX e o FINAMEX e a isenção do ICMS na exportação de produtos
primários e semi-elaborados; a criação do seguro de crédito à exportação;
a redução do "custo Brasil", em especial, pelo processo de modernização
dos portos; e, recentemente, a criação da Agência de Promoção de Exportações.
Esse
conjunto de medidas já começou a dar resultados. Em 1997, enquanto
o comércio mundial cresceu, de acordo com o FMI, 3,4%, em valor, as
exportações brasileiras aumentaram cerca de 11%. Mesmo assim,
ainda há muito a ser feito para que o setor externo contribua de forma
duradoura para a estabilização da economia e para a geração de empregos.
O
Programa Especial de Exportações - PEE inaugura uma nova
fase no relacionamento entre os setores público e privado. Ao estabelecer
uma meta de exportação até 2002, o Programa cria um marco de referência
não só para o Governo, mas, especialmente, para o setor produtivo. Nesse
processo, o ponto central é a co-responsabilidade em busca de um
objetivo nacional. Para isso, serão utilizados de forma estratégica
os instrumentos disponíveis, atualizando-os e aperfeiçoando-os sempre
que necessário. A ambição maior do Programa, porém, é a de organizar
o setor produtivo, por meio do engajamento das lideranças empresariais
para uma efetiva participação no processo exportador.
A
idéia que anima o PEE é a de se criar uma forma inovadora
de organização gerencial do comércio exterior. A exemplo do que
ocorre no Programa Brasil em Ação, o PEE identificará
como empreendimentos a serem gerenciados tanto as atividades
de suporte apontadas como prioritárias, quanto os setores produtivos
com potencial exportador.
Para
integrar o Programa, foram selecionados 59 setores produtivos
que receberão atenção especial do Governo, para conquistar ou ampliar
seu espaço no mercado externo. Esses setores foram responsáveis por
cerca de 88% do valor exportado pelo Brasil, em 1997. Foram definidas,
também, doze atividades de suporte, consideradas fundamentais para o
incremento sistemático das vendas externas: Financiamento à Exportação;
Promoção Comercial; Qualidade e Tecnologia; Gestão Empresarial e Cultura
da Exportação; Trading Companies; Logística; Acesso a mercados; Gestão
Pública; Ajuste de Normas Tributárias; Ajuste de Normas Cambiais; Investimento
para a Exportação; e Questões Trabalhistas.

3.
O Gerenciamento pelas Diretrizes
O
Programa Especial de Exportação adotará o Modelo de Gerenciamento
pelas Diretrizes. A opção por esse método representa um novo paradigma
de atuação pública, contribuindo de forma decisiva para a solução de
problemas em setores apontados como prioritários para o aumento das
exportações brasileiras.
Amplamente
utilizado no setor privado, o Gerenciamento pelas Diretrizes desempenhará
importante papel no cumprimento da meta de exportar US$ 100 bilhões
em 2002. Vale reafirmar que o crescimento mais acelerado das vendas
externas é fundamental para que o País enfrente alguns de seus problemas
e desafios, notadamente, a geração de empregos e a própria manutenção
da estabilidade econômica propiciada pelo Plano Real.
De
forma simplificada, pode-se definir o Modelo de Gerenciamento pelas
Diretrizes a partir de alguns conceitos básicos. Exemplos: uma diretriz
consiste de uma meta e das medidas prioritárias e suficientes
para se alcançar o objetivo. Toda meta é constituída de três
partes: um objetivo gerencial, um valor e um prazo. Uma medida
é um meio ou método específico para se atingir a meta. Gerenciamento,
por fim, é a idealização e a execução de um plano de ação para atingir
uma meta. Exige, primeiramente, a análise do problema e de suas causas
e, a seguir, a definição e a execução de medidas suficientes para resolvê-lo,
ou seja, para reduzir a distância entre o objetivo que seria alcançado
com a simples administração da rotina e o que se pretende atingir como
meta propriamente dita.
As
condições fundamentais para o êxito do Gerenciamento pelas Diretrizes
são o engajamento e a liderança da alta administração e a determinação
de todos os participantes do projeto em atingir a meta global pré-estabelecida.
A
implantação do Gerenciamento pelas Diretrizes impõe a adoção dos seguintes
princípios:
i)
o estabelecimento das diretrizes anuais e de longo prazo para todos
os níveis gerenciais;
ii)
a execução dos Planos de Ação, que indicam as medidas prioritárias e
suficientes;
iii)
a verificação dos itens de controle, no acompanhamento da implementação
do Plano e nos diagnósticos, avaliando-se, assim, os resultados e o
grau de avanço das medidas;
iv)
a reflexão, que envolve a análise da diferença entre as metas e os resultados
alcançados, a determinação das causas do desvio e as recomendações de
medidas corretivas - as contramedidas.
No
Programa Especial de Exportações, a diretriz traçada inclui
a meta de aumentar as exportações para US$ 100 bilhões, em 2002, e as
doze áreas de suporte. Para isso, a diretriz geral será subdividida
em diretrizes setoriais, com suas metas e novo nível de medidas. Os
59 setores selecionados e as doze áreas de suporte serão acompanhados
por gerentes, cada um deles responsável por seu empreendimento e com
ampla autonomia gerencial.
As
gerências temáticas, encarregadas das medidas de suporte, serão
exercidas por funcionários do setor público, que trabalhem na instituição
responsável pelas tarefas críticas associadas ao tema. Já as gerências
setoriais, às quais cabe responder pelas metas setoriais, serão
ocupadas por profissionais da iniciativa privada, que representem, efetivamente,
os setores envolvidos e que tenham liderança, prestígio, iniciativa
e criatividade.
O
gerenciamento do PEE será realizado em dois níveis:
i)
por meio de reuniões da equipe gerencial com o Presidente da República,
tendo em vista estimular a cooperação entre os gerentes;
ii)
pela Câmara de Comércio Exterior - CAMEX, à qual caberá a gerência da
rotina do Programa, que envolve as atribuições de monitorar, apoiar
e articular as ações do PEE. A CAMEX deverá, ainda, promover
reuniões com os diversos gerentes setoriais e temáticos, para reforçar,
periodicamente, o empenho e a determinação, no cumprimento das metas
estabelecidas.
Com
o Programa Especial de Exportações, o Governo e a iniciativa
privada sugerem uma ambiciosa trajetória para as exportações brasileiras,
de forma a aumentar a contribuição do setor externo para a estabilização
duradoura da economia. É importante reiterar que não se trata de
fazer um simples exercício de previsão, trata-se de fixar uma meta para
as exportações focalizando a implementação e o gerenciamento da política
pública. A trajetória desenhada para as exportações depende desse gerenciamento
a ser realizado visando aumentar a produtividade decorrente dos ganhos
com a abertura econômica; reduzir o viés anti-exportador, e elevar a
competitividade dos produtos brasileiros com a diminuição "do custo
Brasil".
Como
instrumento básico de acompanhamento do PEE, será implantada
uma rede informatizada, contendo um sistema completo de informações
gerenciais. Esse sistema será alimentado pelos gerentes responsáveis,
em tempo real e de forma exclusiva, de modo a possibilitar total transparência
ao empreendimento. Com base nesse sistema, serão gerados relatórios
periódicos de análise para o conhecimento do Presidente da República
e dos setores envolvidos.